
O sol convidava, a natureza erguia-se ante mim, e eu aventureira parti, embalada pela canção do vento, sentindo na minha pele o odor da natureza que acalma, que apazigua...o rio saltitava de pedrinha em pedrinha, sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo, quando o mundo já não tinha tempo...detive-me junto ao rio, tirei os sapatos e permaneci descalça mergulhando de vez em quando os pés na água...e contemplava a paisagem, calma, silenciosa, sem vestígios de vida e envolta na vida, de vez em quando um pássaro vinha beber ao rio e logo partia para nova viagem...e eu ficava a ouvir o seu chilrear nas árvores frondosas que se estendiam á minha volta, e sentia-me bem, ali não havia pessoas, nem trânsito, nem barulho... era só o rio, o vento, os pássaros, as árvores e eu...

Caminhei por entre as árvores, quase não havia caminho...as pessoas não costumavam andar por aquelas paragens, caminhei durante um bom tempo, até que cansada me sentei junto a uma das árvores...acho que passei pelo sono, quando acordei...vi ao longe, uma espécie de cabana...devia, por precaução, retroceder, voltar á aldeia...mas não, continuei o caminho, queria ver a cabana de perto...e fui...
Ao chegar fiquei surpresa...encontrei um homem que plantava a terra, que tinha flores, árvores de fruto...e a cabana de madeira, tinha cortinas azuis nas janelas...fechei os olhos, eu não devia estar a ver bem...voltei a abri-los...a imagem continuava, e eu pensava de mim para mim... - apanhei sol a mais... - retrocedi...mas o homem dos seus 70 anos, reparou em mim...disse algo que eu não entendi...apressei o passo, começava a sentir-me insegura...e ele vinha atrás, em passo mais lento... eu transpirava frio...tremia...ai! que ideia de me andar sempre a meter em sarilhos...e eu a pensar que por ali não havia ninguém...mas, parei...parei quando o homem disse - Não receeis ..eu sou de Deus! - fiquei imóvel, até o homem se aproximar, os meus olhos espelhavam certamente pânico, ainda me sentia a tremer, respirava a custo, mesmo que quisesse falar não conseguiria fazê-lo...ia engolindo em seco...precisava de água...tinha tanta sede...talvez fosse desmaiar...a minha cabeça girava a uma velocidade estonteante...finalmente o homem chegou e disse: “ pela primeira vez em tantos anos tenho uma visita...e ias embora sem trocar uma palavra comigo?”... eu tinha perdido as palavras...encolhi os ombros, e continuava a engolir em seco...ele percebeu a minha aflição, pegou na minha mão que estava gelada apesar do calor e levou-me para o jardim...o cheiro intenso das flores, ia despertando a minha mente, deu-me água que eu bebi, bebi, comecei então a acalmar...ele sorria, um sorriso cheio de serenidade, lembrou-me o meu avó, aquele sorriso que se ganha com os anos, aquele sorriso cheio de bondade...foi só nesse momento que aterrei em mim...aquele homem, era um bom homem, incapaz de matar uma formiga...e eu a pensar que fosse um bandido, ou um louco...senti vergonha dos meus pensamentos, do meu medo...e comecei a voltar a mim...esbocei um leve sorriso, enquanto ia repondo o meu equilíbrio interior...e ele perguntou que fazes por aqui...?, aguardou ... e eu...finalmente ia falar... - não sei, vim embalada pelo vento, pelo rio, pelas árvores...não sabia que aqui vivia alguém... peço desculpa por incomodar... - entendo... seguiste as pistas e quando encontraste “o tesouro” achaste que não era e quiseste fugir...mas repara nas pistas que te trouxeram, os elementos da natureza, como disseste, foram eles que te trouxeram...e que procuravas neles? A paz, o silêncio...Deus! Foi isso...eu concordei... - sim! Foi isso! Mas não entendo...porque está aqui, parece que tem aqui um mundo...dentro do mundo...não sei...as flores, a terra plantada...as árvores...a fonte...a cabana...o cheiro a pão fresco...e aqui não é o mundo - Ele soltou uma gargalhada! Enquanto me ia dizendo...aqui é o mundo sim! Aqui eu tenho tudo para poder viver e para que os outros vivam...eu tenho a paz, o silêncio, a natureza...e Deus! Eu vivo em Oração...há muito, muito tempo!

Ouvi o esvoaçar de um pássaro...e eu abri os olhos... lá estava eu encostada á árvore, tinha adormecido...tinha sonhado... procurei a cabana no horizonte, mas não a conseguia ver, por mais que a procurasse...era hora de voltar para a aldeia, olhei ainda várias vezes para trás, mas o silêncio era profundo...levava comigo uma tranquilidade enorme e guardava no coração o sorriso bondoso, daquele bom homem...mesmo que ele não existisse...
- Um mundo dentro do mundo... -
São os "nossos mundos..."
E como serão eles, estão lavrados ou cultivados,
serão de dia ou de noite...povoados por nós
ou por outros?