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domingo, 3 de julho de 2011

A senhora é rica?

"Ficaram diante da porta - duas crianças abandonadas em sujos casacos. 

- Tem algum papel velho, senhora? Eu estava ocupada. Eu quis dizer que não - até que eu olhei para os seus pés. Pequenas e gastas sandálias, ensopadas com a chuva. - Entrem e eu farei uma chávena de chocolate quente para vocês. Não houve nenhuma conversa. Elas deixaram as marcas das sandálias encharcadas sobre a soleira e todo o chão da sala. Eu  levei-as até à cozinha e servi-lhes chocolate quente e torrada com doce, tentando fortalecê-las contra o frio do lado de fora. 


O silêncio na cozinha atravessava-me. A menina segurava a chávena vazia nas suas mãos. O menino perguntou, 

- Senhora... você é rica? 
- Se eu sou rica? Claro que não! Eu olhei para minha toalha gasta sobre a mesa. A menina colocou a sua chávena de volta ao pires - cuidadosamente. - A sua chávena combina com o seu pires. Ela disse com uma voz velha, com uma fome que não era do estômago. Então as crianças partiram, levando os seus pacotes de papéis velhos contra o vento. Elas não disseram obrigado. Não precisavam. Elas tinham feito mais que isto. Eu fritei as minhas batatas e terminei o molho de carne. Batatas e molho de carne... um tecto sobre nossas cabeças... O meu marido com um bom e estável emprego. Estas coisas combinavam, também. Coloquei as cadeiras no lugar, apaguei o lume e arrumei a sala. As impressões barrentas das pequenas sandálias ainda estavam pelo chão. Eu deixei-as lá. 


Eu quero que as marcas estejam lá para o caso de eu me esquecer novamente do quanto sou rica. "Tradução e adaptação de Sergio Barros sobre texto de Marion Doolan

2 comentários:

Ju disse...

Que história rica...

Ju disse...

Que história rica...