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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Mãe coragem

«Há um ano, recebeu uma chamada do telemóvel do marido: "Tens que ser muito forte!". Ausente do país em viagem de trabalho, pela primeira vez desde o nascimento dos filhos, Carlos teve um AVC hemorrágico. Aos 35 anos, de forma brutal. "O meu mundo desabou naquele momento", recorda Sandra. Apanhou o primeiro avião para Munique, deixando o seu Alexandre de seis meses ("ainda mamava!") e a sua Maria de quase dois anos, com os tios. Durante um mês viveu 16 horas por dia nos cuidados intensivos do hospital, junto ao marido em coma, com os médicos a dizerem-lhe todos os dias que ele não iria sobreviver. Interrompeu a sua vigília apenas para vir festejar os dois anos da filha. "Sempre a tentar sorrir e a não chorar ao pé dela." 

Por fim, trouxe-o para Portugal. Continua em coma, agora numa unidade de cuidados continuados no Entroncamento. Morando em Samora Correia e trabalhando em Lisboa, Sandra faz 300 quilómetros todos os dias. Acorda às 5h30, trata dos filhos, passeiam em conjunto os dois cães e, depois de levá-los à escola, vai sempre visitar o marido antes de começar a trabalhar. Fala com ele, conta-lhe o dia anterior, "na esperança que me oiça e entenda". A sua vida mudou radicalmente. "Tudo o que eu achava que não conseguia fazer sozinha, passei a fazer. Sempre pensámos que apenas um não ia conseguir dar conta do recado". Mas consegue. E com a responsabilidade acrescida de compensar a ausência do pai e de fazer tudo como tinham planeado. "Quero ter a certeza de que faço o melhor possível, como se ele estivesse ao meu lado", reconhece. É nos filhos que arranja forças. Pensou que a sua vida ia acabar, mas "era irreal desistir". Por eles, leva a vida para a frente: "Como sou totalmente impotente para alterar a situação do Carlos, olho para tudo o resto da minha vida e penso no que posso mudar. Não desisto e vou continuar a dar tudo por tudo." Para os filhos, gostava de ser um exemplo; para os outros, um sinal de esperança. "Achamos que perante certas situações nunca iríamos conseguir dar a volta. Mas conseguimos. Arrajamos forças que não sabíamos existir. Os filhos são o grande mote e alento. Por eles, fazemos coisas impensáveis." Sandra acredita que ainda é possível a situação do seu marido evoluir, ainda que leve largos anos. "Quero poder dizer-lhe, se ele melhorar: 'Aqui estão os nossos filhos. Estiveste sempre connosco'.»

Este é um excerto de uma reportagem que saiu na Pais & Filhos de Maio (e que já está nas bancas). É da jornalista Ana Sofia Rodrigues. 

Esta história tocou-me profundamente. Serve para mostrar como a maior parte das nossas coisinhas, não são mais do que isso: coisinhas. Claro que todos temos o direito de nos ir abaixo. Mas é bom que tenhamos a noção do que são os problemas reais. Brutais. Avassaladores. 
Ao Carlos desejo que acorde depressa, porque tem uma família maravilhosa à sua espera.

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