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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Os novos velhos...


Tarde cinzenta, daquele cinzento que entra por nós a dentro e nos põe também cinzentos. Parece que de repente tudo perdeu a cor, os risos desapareceram com o sol, e todos se afundam nos casacos de inverno, nos cachecóis e outras coisas que mais. Os rostos tristes vão desfilando, um atrás dos outro, ignorando o que se passa lá fora, cada um entrosado consigo próprio. Mas, eis que entre tantos rostos, meio desconhecidos, aparece um também triste, que conheço:
- Olá! Tudo bem?
- Não...tudo mal...
- Então?
- Sou velho...
- Velho? Com...quarenta e...
- Sim... a partir dos quarenta, ou antes até, somos velhos...
- Mas, espera, isso é o quê? Alguma lei nova que saíu? Alteraram a idade da reforma?
- Antes fosse, não, somos velhos para trabalhar, estou desempregado e tenho andado a procurar emprego e é essa uma das respostas que tenho obtido, em alternativa à de que não estão a admitir, mas sim a dispensar pessoal...
- A situação está muito complicada... vão ser tempos muito dificeis.
- Se não tivesse família, encargos, de alguma maneira havia de ser, mas assim, não faço sequer idéia como vai ser.
A sua voz ia saindo a custo e enquanto fitava o horizonte, as lágrimas iam tombando devagarinho...
Despedimo-nos tentando que as nossas palavras fossem de esperança; mas, nada naquele momento conseguiria dissipar o cinzento que se adensava.
Vi-o afastar-se, de ombros caídos, as suas palavras iam ressoando em mim..."Somos velhos", e senti o peso delas nos meus ombros, no cinzento à minha volta, na chuva que ia caindo e nos rostos tristes e sem alento que continuavam a passar.

2 comentários:

Micaela disse...

É uma situação muito complicada esta: ou não se tem a experiência necessária ou se é demasiado velho para trabalhar. Como podemos desperdiçar tanto potencial profissional e pessoal? Não entendo!
Obrigada, Elsa, por nos fazeres sempre pensar nos assuntos que costumamos varrer para baixo do tapete.
Beijinhos.

Antonio Valerio, sj disse...

Ola Elsa! Este tipo de situações são tantas vezes um bloqueio, que nem sei que devo dizer para ajudar... é tudo muito injusto! às vezes o ouvir e o estar presente, atento é uma ajuda grande a que um amigo não se sinta desanimado. E tentar ser o mais criativo possivel para ajudar a encontrar soluções. Sobretudo ver o que da nossa parte pode ser a ajuda possivel e comprometermo-nos com isso. Obrigado pela provocação e parabéns pelo blog. beijinho